segunda-feira, 29 de novembro de 2010

À MESA COM MONET



Claude Monet se instala definitivamente em Giverny (80 km de Paris) com a mulher e seus oito filhos em 1883. É na bela casa desta pacata cidade que o artista empenha-se em criar um ambiente deliciosamente aconchegante como o que reina em suas telas. Ali Monet oferece almoços inesquecíveis a seus amigos igualmente famosos (ele preferia receber para o almoço, pois gostava de acordar cedo no dia seguinte e entregar-se à sua arte). Descobri, não sem surpresa, que Monet não cozinhava, mas fazia questão que a refeição fosse preparada com cuidado e esmero. “Há relatos que o gênio impressionista ficava de ótimo humor diante da perspectiva de uma boa refeição, porém era preciso ter cautela nos dias em que ele estava descontente com sua pintura.”
O livro, À mesa com Monet, que reúne curiosidades, receitas e fotos de endoidecer gente sã, revela de forma deliciosa e encantadora a intimidade da família e quelques secrets culinários do pintor, desvendados a partir da descoberta de seus cadernos de receitas, todas adaptadas pelo Chef Joël Robuchon do L'Atelier em Paris e trazidas para a nossa realidade por outro Chef, Claude Lapeyre, residente em nosso país.
Virar as páginas do livro é transportar-se ao passado, à virada do século XIX; é entrar na casa do artista e ser parte do espírito do lugar; é testemunhar o casamento perfeito do azul & amarelo; é percorrer seus jardins; é sentar-se à mesa e desfrutar das iguarias preparadas em panelas de cobre, como se fôssemos um de seus ilustres convidados. É, sobretudo sentir-se à vontade com Monet e lamentar não ter, verdadeiramente, saboreado uma fatia de vida ao lado dele.
Entre tantas receitas de sopas, ovos, molhos, entradas, aves, carnes, carnes de caça, peixes e crustáceos, sobremesas, ter que escolher uma é quase um castigo. A eleita foi a de Cebolas brancas recheadas. Anote: 4 cebolas grandes, 250gr de porco assado picadinho ou moído, 2 colh. sopa de cebolinha picada, 2 colh. sopa de ervas aromáticas frescas, 150gr de queijo do tipo suíço ralado. Agora corte uma tampa de 1cm de cada cebola. Branqueie-as em água fervente por 30 min. Escorra e deixe esfriar. Retire o miolo deixando a cebola com 1cm de espessura. Recheie com a mistura de carne, cebolinha, ervas e a metade do queijo. Ponha em forma untada e leve ao forno até dourar. Polvilhe com o resto de queijo.
Bon appétit!

ORA-PRO-NÓBIS


Ora-pro-nóbis é um desses matinhos que crescem à toa, sem eira nem beira, largadinhos ali no fundo do quintal, coisa de Deus. A plantinha cresce “sem regra nem regas” lá pelas bandas de Sabará, sede do Festival do ora-pro-nóbis. O objetivo da festa é consolidar a verdura como prato típico daquela cidade mineira. As folhinhas são arrancadas do pé, lavadas, cortadas ao meio e refogadas em pouco óleo, mexendo sem parar até perder aquela babinha característica dos cactos. Pronto. Depois é só servir com o que Minas tem de melhor: marreco, frango caipira, costelinha de porco, angu de milho... É comida de roça, de preparo simples, sem muita técnica. É comida fácil de fazer, boa de comer. A planta que também produz frutos comestíveis (ainda não provei) e cujas folhas são verde-escuras tem gosto suave, é fonte de beta-caroteno, é rica em cálcio, fósforo e ferro. Ela está presente em diferentes países (Estados-Unidos, México, Cuba, Austrália, Índia, Filipinas, Israel...), mas parece que é no solo mineiro que a erva fica feliz e dá, dá, dá...
Saí em busca da verdura, achei (em uma bandejinha de isopor e embrulhada em plástico, mas achei!). Comi com cebola roxa, alho, cenoura, abobrinha verde, pimentão amarelo, tudo refogado no azeite e temperado com tomilho, um raminho de manjerona e regado com um pouquinho de caldo de carne. Fui atrás da origem do nome, em vão. Só sei que vem do latim e significa Rogai por nós. E já num tá bão, sô?! Fica aqui minha sugestão para a Ceia de Natal: qualquer coisa com ora-pro-nóbis, pato, marreco, o tradicional peru, porco, massa, saladas (tem até sorvete da folha)... O importante é que nunca nos falte comida pra compartilhar com os amigos, ora-pro-nóbis! Que floresça em nós a semente do amor ao próximo, ora-pro-nóbis! Que sejamos fonte de alegria e gratidão, ora-pro-nóbis! Que nossos filhos, os filhos deles e todas as crianças sejam cobertas de bênçãos e tratadas a pão-de-ló, ora-pro-nóbis! Que respeito a tudo e a todos seja espontâneo e natural como mato que cresce no fundo do quintal, ora-pro-nóbis! Que nossa gula seja perdoada, ora-pro-nóbis! E que, se não for pedir demais, SP/Paris vire ponte-aérea para nós, ora-pro-nóbis! Afinal, não só de comida vive o homem. Feliz Natal!
Bon appétit!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

COZINHA PRA LÁ DE CRIATIVA



Uma amiga antenada me mandou um link. Já está nas bancas o Guia Brasil 2011 com a lista dos restaurantes “estrelados” e há um monte deles pra quem quiser checar. Mas são os bares, os botecos e os botequins, as pastelarias, as barracas de praia e mais um punhado de “portinhas suspeitas” que foram conferidos pelos repórteres do renomado guia, com o intuito de desvendar um universo gastronômico brasileiro que está longe de ser cravado com uma mísera estrelinha, mas é pra lá de curioso e original, além de encher o céu da boca de qualquer cristão, com combinações no mínimo divertidas.
Em sua próxima viagem a Salvador, seja corajoso e vá ao Bar Pimentinha (Boca do Rio) que abre só às segundas (a estranheza já começa por aqui). O proprietário, que é descendente de Índios, acolhe a clientela com um “banho de sete folhas”, o maço serve para dar sorte e tirar mau-olhado. Até aí tudo bem. Mas o melhor (?) está por vir. O prato-mor do estabelecimento é o Frango de encruzilhada, servido inteirinho, recheado com farofa e apresentado ao cliente com uma vela acesa espetada na carne. Afff... Devore a ave sem pensar muito, mas antes reze para o Senhor do Bonfim ajudar na digestão.
Porém, se é Belo Horizonte o seu destino, o Bar Temático, no bairro Santa Tereza é a bola da vez. O barzinho é imbatível no quesito bom humor. A especialidade do lugar é a Frustração di noiva, preparada com lingüiça atropelada (fritinha e despedaçada), acompanhada de mandioca mole. E será que dá pra se divertir com isso? A gastronomia popular oferece mesmo um mundo de possibilidades. Neste campo, a cozinha sisuda, elitista, estressante e cheia de frescuras não serve nem pra despacho.
Bon appétit!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

COMIDA É PATRIMÔNIO



A lista do patrimônio cultural imaterial da humanidade, criada por uma convenção em 2003, tem como objetivo proteger culturas e tradições populares, bem como lugares e monumentos. Terça-feira passada, 16 de novembro, a “comida gastronômica francesa” engordou a tal listinha que agora conta com 178 práticas culturais e/ou tradicionais. Um comitê da UNESCO que reuniu entendidos no assunto em Nairóbi (Quênia), considerou que a gastronomia francesa com todo seu zelo para se preparar a comida, reúne ce qu’il faut para abrilhantar a lista, já que a culinária francesa está diretamente ligada a uma “prática social destinada a celebrar os momentos mais importantes da vida dos indivíduos”, afirmaram os especialistas (que também devem ser bons de garfo!). Pela primeira vez uma “cozinha” que envolve comida, bebidas, utensílios utilizados, aspectos culturais, é citada no patrimônio da humanidade. Parabéns aos franceses que a essa altura já empinaram mais um bocadinho os avantajados narizes, encheram ainda mais o peito e estão, pra variar, salpicados de orgulho. Se a cozinha francesa é tudo isso (e é), o que dizer então da milenar cozinha árabe? Verdade seja dita: a cozinha mais humana que existe (mas este assunto fica pra outra ocasião).
Para mim, comida sempre foi patrimônio; é coisa sagrada; é o carimbo de um povo. E quem quiser realmente penetrar em uma cultura distinta, integrar-se, saber, há de começar a empreitada pela porta dos fundos: os mercados de cada cidade. É ali que se vê o habitante comum; ali se concentram os cheiros e as cores do lugar. Os mercados estão impregnados de tradições, de sabedoria popular, é história pura. A vida pulsa entre gente e alimento, e segue naturalmente seu curso. Isto, sim, é patrimônio!
Na esperança de ver, quem sabe um dia, a culinária brasileira engrossar a bendita lista da UNESCO, fica aqui minha sugestão: O Picadinho preparado pela Chef Eliane Carvalho, servido como plat du jour toda sexta-feira no Brie Restô, em Sampa. A criatividade, a delicadeza e a elegância na apresentação do prato, que vem acompanhado do nosso patrimônio nacional (arroz & feijão), provam que na cozinha (em tudo, aliás) é chic, chiquérrimo ser simples!
Bon appétit!